COMO O EVENTO CLIMÁTICO DA ESTIAGEM INFLUENCIA O ORÇAMENTO?

As organizações agrícolas são vitais para produção de alimentos e apoiam a sobrevivência humana. No entanto, os eventos climáticos extremos podem levar a impactos substanciais, como o comprometimento da produção ¹. No sertão nordestino, as chuvas são insuficientes para suportar uma safra agrícola, bem como a distribuição de forma irregular da chuva não responde aos requisitos de umidade de colheita ². Nestas circunstâncias, as organizações devem adotar ações adaptativas.

A proposta deste estudo se pauta na necessidade de compreender o efeito do evento climático adverso da estiagem na utilidade do orçamento agrupada no planejamento e no diálogo. Acompanhamos uma organização do agronegócio brasileiro que atua em 5 segmentos (defensivos, fertilizantes, agricultura, logística e máquinas) e tem plantações em seis fazendas localizadas nos estados do Maranhão e Piauí.

Resumindo a história
Ekholm e Wallin (2011) ³ sugeriram duas principais utilidades para o orçamento: (a) utilidade agregada no planejamento (planejar, coordenar, alocar de recursos e determinar os volumes operacionais) e (b) utilidade agregada no diálogo (comunicar, criar consciência e motivar). A utilidade agrupada no planejamento denota a necessidade do cumprimento de padrões que foram especificados (meta, estratégia), enquanto a utilidade agregada no diálogo permite discussões para possíveis decisões e estimula a interação entre os níveis hierárquicos 4.

O resultado indica que a estiagem tem efeito direto na estratégia definida. O gerente reconhece que a estiagem proporciona alteração no planejamento do orçamento, na coordenação de unidades, alocação de recursos e determinação de volumes operacionais. Ele explica que realoca recursos e/ou refaz programações para um aproveitamento mais produtivo, de acordo as decisões que são tomadas pelo Presidente. Diante das circunstâncias, os funcionários são conduzidos para seguir padrões especificados.

Como as decisões são tomadas de forma unilateral pelo Presidente, não evidenciou o efeito da estiagem na utilidade do orçamento agregada no diálogo. Não foi percebido a presença de discussões para tomada de decisões e falta de interação entre os níveis hierárquicos 5. Essa percepção pode ser explicada pelo entendimento que a estiagem é um fator externo e que não há possibilidade de interferir, como afirmava na nota explicativa do exercício de 2016.

Contribuição para o campo prático
Nossa descoberta sugere que se deve ampliar a utilidade do orçamento nas organizações. Evidenciou-se a carência da utilidade do orçamento para o diálogo, comunicar ideias e criar consciência do que é necessário para se alcançar. Essas utilidades elevam o comprometimento dos funcionários, focam em ações, instigam a criatividade 6, o que fornecem suporte que minimiza os efeitos da quebra de safra e as incertezas causadas pela estiagem.

Vídeo resumo do artigo:

*A pesquisa é fruto da colaboração entre Thiago Bruno de Jesus Silva, Professor do curso de Ciências Contábeis da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD); Carlos Eduardo Facin Lavarda, Professor do Programa de Pós-graduação em Ciências Contábeis da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); e Renata Mendes de Oliveira, Professora do curso de Ciências Contábeis da Universidade Federal de Uberlândia (UFU)*

*O artigo resultante da pesquisa foi aprovado e publicado no Engema/USP. Se você tiver alguma dúvida sobre a publicação, não hesite em nos contatar.

REFERÊNCIAS
1 – BOUWER, Laurens M. Observed and projected impacts from extreme weather events: implications for loss and damage. In: Loss and damage from climate change. Springer, Cham, 2019. p. 63-82.

2 – BEZERRA, J. R. A. A seca no Nordeste brasileiro: uma leitura do Jornal Folha de São Paulo. Temática, 12(8), 2016.

3 – EKHOLM, Bo‐Göran; WALLIN, Jan. The impact of uncertainty and strategy on the perceived usefulness of fixed and flexible budgets. Journal of Business Finance & Accounting, v. 38, n. 1‐2, p. 145-164, 2011.

4 – ADLER, Paul S.; BORYS, Bryan. Two types of bureaucracy: Enabling and coercive. Administrative science quarterly, p. 61-89, 1996.

5 – KRUIS, Anne-Marie; SPEKLÉ, Roland F.; WIDENER, Sally K. The levers of control framework: An exploratory analysis of balance. Management Accounting Research, v. 32, p. 27-44, 2016.

6 – CHENHALL, Robert H.; MOERS, Frank. The role of innovation in the evolution of management accounting and its integration into management control. Accounting, Organizations and Society, v. 47, p. 1-13, 2015.

Publicado por Thiago Bruno de Jesus Silva

Professor • Pesquisador • Gestão, Cooperativismo e Educação Financeira

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