Há alguns dias, tive contato com algumas discussões sobre aquilo que vem sendo chamado de “economia da solidão” e, embora inicialmente tenha pensado que se tratava apenas de mais uma expressão criada para dar nome a um fenômeno contemporâneo, fui buscar o que já havia sido escrito sobre o assunto. Encontrei uma literatura relativamente ampla, especialmente relacionada ao comportamento dos consumidores, e uma revisão sistemática de Huang e Li (2023), que analisou 68 estudos sobre a chamada consumer loneliness e mostrou como o tema vem sendo discutido a partir de diferentes comportamentos, preferências e contextos de consumo.
Foi justamente ao entrar em contato com essa literatura que comecei a perceber que o assunto poderia ser observado por uma perspectiva um pouco diferente. Mais do que pensar apenas nas pessoas que estão sozinhas, fiquei pensando em como determinadas escolhas de vida podem estar modificando a maneira como consumimos e, principalmente, em como atividades que durante muito tempo exigiram que saíssemos de casa passaram a poder ser realizadas dentro dela.
Pense em uma sexta-feira à noite. Depois de uma semana cansativa, uma pessoa pode encontrar os amigos em um bar, jantar em um restaurante, ir ao cinema, assistir a um jogo de futebol ou simplesmente passar algumas horas em uma cafeteria conversando. Mas ela também pode chegar em casa, ligar a televisão, colocar uma série na Netflix, pedir uma pizza e passar a noite no sofá. Não há nada de estranho nessa segunda opção e, provavelmente, muitos de nós já fizemos exatamente isso. A questão que me ocorreu, entretanto, foi outra: o que acontece com a economia quando essa escolha deixa de ser uma exceção e passa a fazer parte do estilo de vida de uma parcela cada vez maior das pessoas?
Talvez a primeira coisa que precisemos perceber é que ficar em casa não significa necessariamente consumir menos. Em muitos casos, significa consumir de uma maneira diferente, porque uma pessoa que passa mais tempo dentro de casa pode ter incentivos para investir justamente naquilo que torna esse ambiente mais agradável. Uma televisão maior, um sofá mais confortável, um ar-condicionado, uma internet mais rápida, uma assinatura de streaming, um videogame, uma máquina de café ou uma cozinha mais equipada são exemplos de produtos que podem ganhar importância quando a casa deixa de ser apenas o lugar onde dormimos e passamos a utilizá-la também como espaço de lazer, entretenimento, alimentação e descanso.
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