Um Homem em Movimento: Reflexões de uma Jornada Interior e Exterior

Este livro não chegou à minha vida por acaso. Por trás dele, existe uma história simbólica que começou em uma rodoviária de Salvador. Eu voltava de Cruz das Almas quando um senhor se aproximou com três livros e uma proposta inusitada: trocá-los por um prato de comida. Não tinha dinheiro físico na hora, mas ele agiu prontamente, indo a um restaurante próximo, pegando o Pix do estabelecimento e voltando para que eu fizesse o pagamento. Embora quisesse me entregar os três, achei justo escolher apenas um. E o escolhido foi “Um Homem em Movimento”. Desde aquele dia, eu o tenho na minha prateleira, esperando o momento certo para ser relido.


A Primeira Leitura: Turbulência e o Peso da Mochila

Na primeira vez que o li, meu contexto era de pura turbulência. Vivia um relacionamento complicado e enfrentava situações no trabalho que minavam minha saúde emocional. A corrida, que sempre foi parte essencial da minha vida, ainda não era protagonista, mas começava a surgir como uma possibilidade de autocuidado, uma vez que as dores emocionais já se refletiam no meu corpo.

O que mais me marcou foi como o livro me aproximou de Deus e, principalmente, me fez encarar minhas próprias crenças limitantes. Ele ficou todo marcado, repleto de anotações e reflexões. Um dos trechos mais impactantes, no capítulo 12, falava sobre “O Peso da Mochila”. Isso me atravessou profundamente, o que me fez perceber que carregava vaidades, expectativas irreais e cobranças desnecessárias que atrasavam minha vida.

Outro ensinamento que carrego até hoje é: “Sempre pergunte ao universo. Pergunte a Deus. E aprenda a ouvir a resposta. Ela sempre vem. Pela intuição, pelos sinais.” Esse trecho ecoa em mim, lembra-me que as respostas, muitas vezes, estão dentro, na quietude da alma.

Foi essa leitura que plantou em mim a vontade de fazer o Caminho de Santiago, em busca de autodescoberta e de um reencontro comigo mesmo.


A Segunda Leitura: Resiliência e Recomeços

O tempo passou. A vida me moldou, me transformou. E então veio a segunda leitura, que coincidiu, não por acaso, com um momento delicado: o período da minha lesão no joelho. Isso me afastou da corrida, a prática que representa tanto quem eu sou.

Relendo as páginas, percebi o quanto precisava acreditar mais em mim. Deparei-me com uma frase que parecia ter sido escrita para mim: “Percebemos que precisamos acreditar mais em nós mesmos. Muitas vezes não sabemos o quanto sabemos e nem o quanto ainda temos a aprender.”

Isso me atingiu em cheio. A lesão me fez questionar meu corpo, meus limites e minhas escolhas, mas também me ensinou que a vida é feita de recomeços constantes.

O livro também me levou a refletir profundamente sobre a autocobrança: “Sou o meu próprio juiz. Mas… juiz de quê? De padrões estabelecidos por quem? O que é certo e o que é errado?” Quantas vezes nos cobramos, nos julgamos, nos sentimos insuficientes, sem sequer perceber que estamos seguindo padrões que nem sabemos de onde vieram?

Outro trecho que me desestruturou: “Às vezes, nos preocupamos com a grife das nossas roupas ou com o óleo que usamos no carro… mas esquecemos do que estamos colocando na nossa máquina espiritual.”

Quantas vezes cuidamos do externo, do material, e negligenciamos nossa própria essência? O alerta segue: “É preciso um esforço adicional para atirar, arduamente, os pensamentos negativos.”

Porque se deixar dominar pelo negativismo é fácil. O difícil, de verdade, é sustentar a disciplina de pensar, sentir e agir de forma positiva, apesar das dores, das quedas, dos tropeços.

Outro ensinamento que carrego comigo desde então: “Quando pessoas se encontram, é porque têm uma mensagem a transmitir. Para isso, precisamos estar abertos… precisamos saber escutar.”

E isso é uma verdade inquestionável. Basta observar. A vida vive nos envia recados, mas nem sempre estamos dispostos a percebê-los.

Um trecho específico me fez refletir muito, sobretudo no contexto da minha lesão. O autor conta sobre um amigo que fazia o caminho com a perna mais curta e o joelho travado, mas seguia caminhando, sorrindo, superando. O autor, cansado, se percebe reclamando e então reflete: “Que direito eu tinha de reclamar do que estava sentindo naquele momento?”

Isso me atravessou profundamente. Quantas vezes nos colocamos no papel da vítima, esquece de agradecer aquilo que já temos, aquilo que funciona, aquilo que a vida já nos oferece?


O Livro e a Terapia: Aceitação e Amor Próprio

Ao comparar a primeira com a segunda leitura, ficou evidente o quanto a vida nos muda e como nossos olhos transformam a forma de enxergar as mesmas palavras. Na primeira, eu não fazia terapia. Na segunda, já estava nesse processo. E percebi o quanto esse livro dialoga diretamente com temas que surgem dentro da terapia: autocuidado, espiritualidade, aceitação, amor-próprio e transformação.

Frases como: “Aprender a se amar.” “Os semelhantes tendem a se atrair.” “Aceite as pessoas como elas são, com suas crenças e valores.” “Os laços de amizade crescem com amor e respeito pelos pensamentos de cada um.”… ficaram gravadas em mim. Porque, no fim das contas, é sobre isso: amar, perdoar, acolher, respeitar e entender que todos nós somos projetos em construção.


Um Livro que se Transforma, Assim Como Nós

Hoje, se alguém me perguntar, eu respondo sem titubear: este não é um livro que se empresta. Nem que se dá. É um livro que se guarda, que fica na cabeceira, que se lê e se relê quantas vezes forem necessárias. Porque ele se transforma. Assim como nós.

Publicado por Thiago Bruno de Jesus Silva

Professor • Pesquisador • Gestão, Cooperativismo e Educação Financeira

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