
Há alguns dias terminei Mostre Seu Trabalho!, de Austin Kleon, um livro curto que parte de uma ideia bastante simples, mas que acabou me fazendo pensar sobre várias coisas que faço no meu dia a dia. O livro fala sobre criatividade, produção e, principalmente, sobre a importância de compartilhar aquilo que fazemos. Kleon defende que não devemos esperar até que um trabalho esteja completamente pronto, perfeito ou suficientemente importante para colocá-lo diante de outras pessoas. Ao contrário, existe valor em mostrar o processo, registrar o que estamos aprendendo, compartilhar as referências que nos influenciam e permitir que outras pessoas acompanhem aquilo que estamos construindo.
A proposta não é exatamente ensinar alguém a fazer autopromoção. Na verdade, o livro trata de uma questão um pouco diferente: como tornar o nosso trabalho encontrável. Podemos passar muito tempo produzindo alguma coisa, desenvolver uma pesquisa, escrever um texto, aprender uma habilidade, criar um projeto ou desenvolver uma ideia e, ainda assim, manter tudo isso praticamente escondido. Ficamos esperando o momento adequado para apresentar o resultado final, como se somente aquilo que está acabado tivesse algum valor. O problema é que, enquanto esperamos esse momento, ninguém sabe que estamos trabalhando, o que estamos aprendendo ou sequer que aquele trabalho existe.
Foi justamente essa ideia que mais me chamou a atenção durante a leitura. Estamos acostumados a mostrar os resultados, mas raramente mostramos o caminho que nos levou até eles. Um artigo publicado parece pronto quando chega ao leitor, mas antes dele houve leituras, anotações, hipóteses que foram abandonadas, análises que não funcionaram, versões que foram reescritas e uma quantidade enorme de trabalho que desaparece quando olhamos apenas para o produto final. O mesmo acontece com praticamente qualquer atividade criativa. Quando vemos uma música pronta, um livro publicado, uma fotografia ou um projeto concluído, temos acesso ao resultado, mas não necessariamente à história que existe por trás dele.
Kleon propõe justamente o contrário: documentar o processo enquanto ele acontece. Fotografar diferentes etapas, registrar ideias, mostrar métodos, compartilhar aprendizados, contar o que deu certo e também aquilo que não deu. Isso não significa transformar cada minuto da nossa vida em conteúdo para as redes sociais, mas reconhecer que o próprio processo pode ser interessante para outras pessoas. Em determinado momento do livro, essa ideia aparece de uma maneira que considero particularmente importante: precisamos transformar aquilo que é invisível em alguma coisa que os outros possam ver.
Isso me fez pensar em quantas coisas produzimos sem deixar qualquer registro delas. E, no meu caso, essa reflexão foi ainda mais curiosa porque trabalho com pesquisa, ensino, escrita e projetos que muitas vezes demoram meses ou anos para chegar a algum resultado. Existe uma enorme quantidade de coisas acontecendo antes que um artigo seja publicado ou que um projeto seja concluído. Existem perguntas, leituras, conversas, erros, mudanças de direção, descobertas e pequenas decisões que fazem parte do trabalho, mas que normalmente ficam restritas ao nosso computador ou à nossa cabeça.
O livro também fala sobre a diferença entre fluxo e estoque. O fluxo é aquilo que acontece continuamente: as pequenas atualizações, os comentários, as coisas que publicamos hoje e que amanhã já podem ter desaparecido no meio de tantas outras informações. O estoque é diferente. É aquilo que permanece e pode ser encontrado depois, como um artigo, um livro, um vídeo, uma fotografia, um projeto ou qualquer outro trabalho que continue existindo mesmo quando o momento em que foi produzido já passou. Essa distinção me parece particularmente interessante porque muitas vezes pensamos nas redes sociais apenas como um lugar para publicar alguma coisa e esquecemos que elas também podem funcionar como uma espécie de caderno público, no qual vamos deixando registros do que estamos pensando e fazendo.
É aí que comecei a pensar também em uma atividade que não tem relação direta com meu trabalho acadêmico: música. Eu gosto de montar e gravar sets, experimentar músicas, pensar em sequências, testar transições e descobrir combinações que funcionam. Não sou DJ profissional. Faço isso porque gosto. E durante a leitura do livro comecei a pensar que talvez não exista nenhuma razão para manter esses trabalhos escondidos simplesmente porque são produzidos por alguém que faz isso como amador.
Um dos argumentos mais interessantes do livro é justamente esse: não precisamos esperar que alguém nos considere profissional para começar a mostrar aquilo que fazemos. Podemos aprender enquanto fazemos e permitir que outras pessoas acompanhem esse processo. Isso muda bastante a relação que temos com os nossos próprios erros. Um set gravado pode ter uma transição que não ficou como eu gostaria, uma escolha musical que alguém não goste ou alguma imperfeição que eu mesmo perceba depois de ouvir. Mas isso não significa que o trabalho não tenha valor. Significa apenas que ele registra um momento do processo.
Por isso, uma das coisas que comecei a fazer foi colocar meus sets no YouTube e no SoundCloud. Não porque eu tenha a pretensão de me apresentar como um grande DJ, mas justamente porque gosto de fazer isso e porque compartilhar também faz parte da experiência. Se alguém ouvir e gostar, ótimo. Se alguém descobrir uma música que não conhecia, melhor ainda. E, daqui a algum tempo, quando eu gravar outros sets, também será possível perceber o que mudou. O que hoje parece apenas uma brincadeira pode se transformar em um registro bastante interessante daquilo que eu estava fazendo em determinado momento da minha vida.
Essa ideia também ajuda a diminuir um pouco a pressão de fazer tudo perfeitamente. Existe uma espécie de armadilha na produção criativa em que esperamos estar suficientemente preparados para começar a mostrar alguma coisa. Queremos ter o melhor equipamento, conhecer todas as técnicas, dominar completamente o assunto, produzir um resultado impecável e somente então aparecer. O problema é que esse momento pode nunca chegar. Enquanto esperamos estar prontos, outras pessoas estão produzindo, experimentando, errando, aprendendo e construindo suas próprias redes.
Uma passagem do livro que também me chamou atenção trata justamente da crítica. Quando colocamos nosso trabalho no mundo, precisamos estar preparados para receber comentários positivos e negativos. Isso parece óbvio, mas não é tão simples quando estamos pessoalmente envolvidos com aquilo que produzimos. Uma crítica ao trabalho pode facilmente ser interpretada como uma crítica à pessoa que o produziu. Kleon lembra, porém, que uma das habilidades importantes para quem cria alguma coisa é aprender a apanhar sem deixar que cada crítica determine o que fará em seguida.
Enquanto o trabalho permanece escondido, ele está protegido. Ninguém pode dizer que não gostou de um artigo que não leu, de uma música que não ouviu ou de um projeto que não conhece. Quando colocamos alguma coisa no mundo, perdemos esse controle. Outras pessoas passam a interpretar aquilo de maneiras que não necessariamente correspondem à nossa intenção. E isso faz parte do processo.
Por outro lado, esconder tudo também tem um custo. Se ninguém conhece o que estamos fazendo, ninguém pode contribuir, criticar, sugerir, compartilhar ou simplesmente dizer que gostou. Uma das ideias que mais aparece no livro é a de que compartilhar pode ser um ato de generosidade. Quando colocamos alguma coisa no mundo porque acreditamos que ela pode ser útil ou interessante para alguém, estamos oferecendo uma possibilidade de conexão. Não sabemos exatamente quem estará do outro lado, nem o que aquela pessoa fará com aquilo que produzimos.
Essa ideia me parece particularmente importante em um momento em que muitas pessoas associam exposição necessariamente à autopromoção. Mostrar o trabalho não precisa significar transformar tudo o que fazemos em propaganda pessoal. Existe uma diferença entre dizer “olhem como eu sou incrível” e dizer “estou trabalhando nisso, foi assim que cheguei até aqui e talvez alguma coisa disso seja interessante para você”. A segunda postura me parece muito mais próxima da proposta de Kleon.
Há ainda uma outra ideia do livro que considero bastante útil: o teste do “E daí?”. Antes de compartilhar alguma coisa, vale perguntar se aquilo é interessante, útil ou se existe alguma razão para outra pessoa querer ver aquilo. Não precisamos publicar tudo. Guardar alguma coisa para mais tarde também faz parte do processo. O botão de salvar como rascunho pode ser tão importante quanto o botão de publicar, especialmente quando ainda não sabemos exatamente o que queremos dizer.
Mostre Seu Trabalho! acabou sendo menos um livro sobre redes sociais do que eu imaginava inicialmente. Ele é, principalmente, um livro sobre a relação que estabelecemos com aquilo que fazemos. Sobre deixar de considerar o trabalho como alguma coisa que só pode ser apresentada quando estiver pronta e começar a enxergá-lo também como um processo que pode ser acompanhado, documentado e compartilhado.
Depois da leitura, fiquei pensando em quantas coisas poderiam existir publicamente se não tivéssemos tanto medo de mostrar aquilo que ainda está em construção. Uma pesquisa que ainda não terminou, uma ideia que ainda está sendo desenvolvida, um texto que ainda precisa ser melhorado, uma aula que está sendo preparada, um projeto que começou agora ou um set gravado por alguém que simplesmente gosta de música. Nenhuma dessas coisas precisa ser apresentada como algo maior do que realmente é. Basta que seja apresentada pelo que é.
No meu caso, isso significa uma mudança bastante simples: produzir e registrar mais. Escrever sobre aquilo que estou pensando, documentar alguns dos projetos que estou desenvolvendo e, por que não, colocar no mundo os sets que venho gravando. Eu posso ser um pesquisador que publica artigos, um professor que desenvolve projetos e também alguém que, nas horas vagas, gosta de passar algumas horas escolhendo músicas e montando um set. Uma coisa não precisa invalidar a outra.
Essa é uma das melhores coisas em compartilhar o próprio trabalho: depois de algum tempo, percebemos que não estamos apenas tentando ser vistos. Estamos também construindo um registro de quem éramos, do que estávamos aprendendo e das coisas que decidimos fazer com o tempo que tínhamos. E, quando olhamos para trás, aquele trabalho que parecia pequeno no momento em que foi produzido passa a fazer parte de uma história muito maior.
