Colhendo os frutos: Trabalho, perspectivas e o encerramento de uma jornada sobre finanças no campo

Há algum tempo venho trabalhando com uma questão que, à primeira vista, parece bastante simples: por que algumas pessoas sabem que precisam organizar melhor o dinheiro, mas continuam tendo dificuldade para fazer isso? A pergunta parece ainda mais interessante quando pensamos na poupança. Quase todo mundo sabe que guardar dinheiro é importante. Sabemos que uma reserva pode ajudar diante de uma emergência, que não devemos gastar tudo o que recebemos e que é importante planejar o futuro. Também aprendemos, cada vez mais, sobre juros, crédito, orçamento e investimentos. Mas saber disso significa necessariamente conseguir poupar?

A questão fica ainda mais interessante quando pensamos em alguém que não recebe a mesma quantidade de dinheiro todos os meses. Imagine uma família que trabalha com agricultura familiar e que passa boa parte do ano produzindo, enquanto as despesas continuam acontecendo normalmente. A alimentação precisa ser comprada, a casa precisa ser mantida, existem gastos com a própria produção e, em algum momento, será necessário lidar com uma despesa que não estava prevista. Quando chega o período da comercialização, uma parte importante da renda pode entrar de uma única vez. O dinheiro que chegou precisa, então, sustentar o presente, financiar a próxima produção e, se possível, permanecer disponível para aqueles meses em que a receita será menor.

Nesse cenário, poupar não significa simplesmente decidir que não vai gastar. Significa conseguir olhar para uma receita que está disponível hoje e compreender que parte dela ainda precisará cumprir uma função no futuro. Essa decisão parece racional quando colocada no papel, mas a vida financeira raramente acontece dessa maneira. O dinheiro disponível hoje está cercado por necessidades presentes, desejos, imprevistos e oportunidades de consumo que não estarão necessariamente disponíveis amanhã. Existe, portanto, uma diferença importante entre compreender uma decisão financeira e conseguir sustentar essa decisão quando chega o momento de escolher.

Essa diferença que despertou meu interesse em estudar a relação entre alfabetização financeira, autocontrole e comportamento de poupança entre agricultores familiares e associados de cooperativas rurais da Bahia. A pergunta que orientou o projeto era relativamente simples, mas suas implicações não eram: até que ponto saber sobre finanças está relacionado à capacidade de poupar e qual seria o papel do autocontrole nesse processo?

A educação financeira foi tratada principalmente como uma questão de conhecimento. Se uma pessoa não sabe calcular juros, não entende o funcionamento do crédito, não conhece alternativas de investimento ou não sabe organizar um orçamento, parece razoável imaginar que o primeiro passo seja ensiná-la. E, evidentemente, existe valor nisso. É difícil tomar boas decisões financeiras quando não se compreende minimamente aquilo que está sendo decidido. O problema aparece quando passamos a acreditar que o conhecimento, sozinho, será suficiente para mudar o comportamento.

Conhecer os efeitos de uma alimentação inadequada não faz com que uma pessoa abandone automaticamente determinados alimentos. Saber que dormir pouco prejudica o funcionamento do organismo não significa que todos passarão a dormir oito horas por noite. Da mesma forma, compreender a importância de uma reserva financeira não garante que o dinheiro permanecerá guardado quando surgir uma vontade de consumir, uma necessidade imediata ou mesmo aquela sensação bastante comum de que, depois de tantos meses trabalhando, também seria justo gastar um pouco mais.

Talvez o dinheiro tenha uma particularidade nesse sentido: ele está sempre entre o presente e o futuro. Quando guardamos uma parte da renda, estamos abrindo mão de alguma coisa agora em troca de uma possibilidade que ainda não sabemos exatamente quando precisaremos utilizar. Quando gastamos, fazemos o contrário: transformamos um recurso disponível em alguma satisfação ou necessidade presente. Nenhuma das duas decisões é necessariamente irracional, mas elas competem entre si, e é nessa disputa que o comportamento financeiro começa a ficar mais interessante.

No contexto da agricultura familiar, essa disputa pode assumir características ainda mais complexas. A renda pode ser sazonal, os riscos produtivos são reais e a família e a propriedade muitas vezes utilizam os mesmos recursos financeiros. O dinheiro que deveria permanecer no caixa da produção pode acabar pagando uma despesa da casa, enquanto uma necessidade da propriedade pode ser financiada com recursos que seriam destinados ao orçamento familiar. Quando essas duas dimensões se misturam, torna-se mais difícil perceber quanto a atividade rural efetivamente gera, quanto a família consome e quanto poderia ser reservado para os períodos de menor receita.

A partir dessas questões que a pesquisa procurou olhar para a alfabetização financeira não como uma solução isolada, mas em conjunto com o autocontrole e o comportamento de poupança. A ideia central é que existe uma distância entre possuir determinado conhecimento e conseguir utilizá-lo de maneira consistente nas decisões do cotidiano. O conhecimento pode mostrar um caminho, mas seguir esse caminho depende também de como lidamos com nossas próprias escolhas, especialmente quando o benefício de uma decisão está distante no tempo e a recompensa de outra está disponível imediatamente.

Os resultados desse trabalho deram origem a um artigo científico que foi aceito para publicação no Journal of Agribusiness in Developing and Emerging Economies, além de outros estudos derivados da mesma agenda de pesquisa que foram submetidos a periódicos. Mas um dos aspectos que mais me interessa nesse processo é perceber que uma pesquisa não precisa terminar quando os resultados estatísticos são apresentados em um artigo. Existe uma etapa posterior, que é tentar transformar aquilo que foi aprendido em algo que possa ser compreendido e utilizado por pessoas que não necessariamente terão acesso ao artigo científico.

Foi nesse movimento que surgiu o Guardar hoje para colher amanhã: Guia de Poupança no Campo – Alfabetização Financeira e Autocontrole para Famílias Rurais. O material procura traduzir parte dessa discussão para uma linguagem mais prática e acessível às famílias rurais, abordando questões como organização financeira, separação entre as finanças da casa e da propriedade, construção de reservas e comportamento de poupança.

Ambos os trabalhos foram desenvolvidos a partir da realização do estágio pós-doutoral na Universidade Federal do Vale do São Francisco, sob orientação da professora Vivianni Marques Leite dos Santos.

Nesse período, uma coisa ficou ainda mais clara para mim: falar de educação financeira no campo exige reconhecer que a questão não se resume a ensinar alguém a fazer uma conta. É preciso considerar a maneira como a renda chega, os riscos que existem na atividade produtiva, a relação entre as necessidades da família e as necessidades da propriedade e, principalmente, as decisões que precisam ser tomadas quando existe dinheiro disponível. Uma família pode conhecer perfeitamente a importância de poupar e, ainda assim, encontrar dificuldades para transformar esse conhecimento em uma prática constante.

Isso também ajuda a explicar por que o autocontrole é uma variável tão interessante quando discutimos comportamento financeiro. Não porque ele resolva todos os problemas, muito menos porque devamos transformar questões econômicas em responsabilidade individual, mas porque existe uma dimensão comportamental nas decisões financeiras que não pode ser ignorada. Renda, acesso a crédito, condições de produção e oportunidades econômicas continuam sendo fundamentais, mas, dentro das possibilidades existentes, as pessoas também precisam decidir o que fazer com os recursos que possuem.

Ao olhar para o caminho percorrido pelo projeto, percebo também que seus resultados foram além de um único artigo ou de um único produto. A pesquisa acabou dando origem a dois Trabalhos de Conclusão de Curso, a outros estudos que continuam sendo desenvolvidos a partir dos dados coletados e a materiais voltados à divulgação e à educação financeira no campo.

Além dos desdobramentos acadêmicos e da cartilha, o projeto alcançou outros públicos por meio de artigos publicados no Compre Rural, um canal de informação que dialoga diretamente com os agricultores e que me permitiu a levar a discussão para além dos muros da universidade.

Fica, portanto, o meu agradecimento a Cailane dos Santos e Carolayne da Silva, pela dedicação e pelo trabalho desenvolvido ao longo das pesquisas e de seus respectivos Trabalhos de Conclusão de Curso; a Carlos Uendel da Paixão Vitor, pela participação como bolsista PIBIC e pelo apoio na coleta de dados e na elaboração da cartilha; aos integrantes do Laboratório de Processos Químicos e Inovação (LPQI) e a orientação da Profa. Vivianni Marques, pelas contribuições e por facilitarem o acesso a contatos que contribuíram para a aplicação dos questionários.

Agradeço também à Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), que possibilitou, por meio da Ação de Desenvolvimento em Serviço, a realização dessa etapa de formação e pesquisa no âmbito do pós-doutorado na UNIVASF.

A partir de agora, essa caminhada ganha uma nova etapa, mas não uma interrupção. A Ação de Desenvolvimento em Serviço terá continuidade em uma nova frente de formação, desta vez na FURB, sob orientação do professor Giancarlo Gomes, com foco no ecossistema empreendedor cooperativo e na inovação.

Isso não significa, porém, que as pesquisas sobre comportamento financeiro estejam encerradas ou deixadas de lado. Pelo contrário, essa agenda continuará sendo amadurecida a partir das leituras, das divulgações e submissões dos trabalhos já feitos, das novas perguntas e das experiências que surgirem nesse novo percurso.

Algumas pesquisas precisam mesmo desse tempo para ganhar fôlego antes de voltarem a ocupar o centro da mesa. Em breve, haverá outro trabalho.

Publicado por Thiago Bruno de Jesus Silva

Professor • Pesquisador • Controle Gerencial, Cooperativismo e Educação Financeira

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