GOVERNANÇA CORPORATIVA EM CLUBES DE FUTEBOL

O futebol, além de esquemas táticos e princípios do jogo em equipe, é um fenômeno empresarial onde o aspecto corporativo e o relativo modelo de governança devem ser relevantes. A governança corporativa pode ser definida como as regras, instrumentos, processos e relações que auxiliam no controle de gestão. Isso leva em consideração diferentes decisões como a definição de metas, a ética, decisões estratégicas e a avaliação de desempenho.

Nesse contexto, é possível encontrar diferentes tipos de sistemas de governança (com distintas concepções sobre a natureza) e a finalidade dos clubes de futebol sob dois modelos tradicionais. O primeiro modelo (Fechado), é aquele que os órgãos de controle da organização são representados pelos controladores.

Nesse caso, o poder de governança é concentrado em alguns poucos sujeitos que também contribuem com o capital de risco. Este modelo é típico para países como a Inglaterra e Itália, por exemplo. O Presidente costuma ser um empresário de sucesso que decidiu investir em um clube por paixão, realização pessoal, representada pelos resultados esportivos, prestígio, visibilidade social, retorno econômico direto/indireto.

No modelo fechado, a abordagem de negócios é plenamente subjetiva e não é possível ter figuras profissionais para gerir de forma eficaz a parte esportiva. No modelo aberto, os acionistas majoritários, também, são envolvidos e, nos órgãos sociais, encontram-se figuras além desses acionistas. O aspecto econômico não prevalece e é identificado com a expressão “participação popular”. Na Alemanha, por exemplo, foi estabelecido que 50%+1, do capital, deve pertencer a associações esportivas.

A partir dessa discussão, analisa-se a governança corporativa de dois clubes italianos (Lazio e Juventus) que são listados em bolsa de valores. A intenção foi compreender seus principais elementos e compará-los. Por fim, apresento algumas ideias que podem ser empregadas no cenário nacional.

ElementosLazioJuventus
    Sistema de GovernançaAdministrado por um Conselho de Administração nomeado pelo Conselho FiscalForma tradicional. Gestão estratégica é atribuída ao Conselho de Administração e a função de fiscalização ao Conselho Fiscal
  Composição Conselho de AdministraçãoDois a cinco, mesmo não associados, designados pelo Conselho FiscalEntre 3 e no máximo 15. Atualmente, são 12 conselheiros, dos quais 8 são não executivos e 5 são independentes.
    Tarefas do Conselho de AdministraçãoAdministrar o clube e reporta ao Conselho Fiscal a atividade desenvolvidaFaculdade para praticar atos que julgar necessários para realização do objeto social
      Conselho FiscalMínimo de cinco, máximo de nove. Nomear, destituir o Presidente e membros do Conselho Administração e fixar remuneração. Aprovar demonstrações financeirasTrês revisores oficiais de contas e dois revisores de contas suplentes. Fiscaliza o cumprimento da norma, princípios da correta administração e a adequação da estrutura organizacional.
  Sociedade e AcionistasConselho de Administração promove iniciativas para diálogo contínuo com acionistasO Presidente supervisiona as relações com uma política de atenção e diálogo constantes.
      Código de éticaRegras e Princípios gerais de correção ética e que se deve respeitarEstabelece e consolida relação de confiança que são definidos como categorias (sujeitos individuais, grupos) envolvidos na atividade social
    Sistema de Controle Interno e Gestão de RiscosVisa monitorar a eficiência das operações, a confiabilidade das informações financeiras, cumprimento de normas e salvaguardar ativosVisam permitir um adequado processo e identificação, mensuração, gestão e monitoração dos principais riscos.
Fonte: Gazzola, Grechi, Pavione e Ossola (2019)

Como vimos, a governança é fundamental para atingir os objetivos estratégicos e algumas equipes europeias decidiram implementar com a intenção de obter resultados de alto nível em termos de desempenho. São questões que também devem ser discutidas pelos clubes brasileiros.

Além dos elementos apresentados acima, o que os clubes brasileiros podem aprender e adotar?

  1. Existência de duas formas de gestão (pelo conselho de administração ou pela forma tradicional);
  2. Necessitam zelar pela atualização das informações financeiras no site; comunicados de imprensa, etc. Transparência nunca é demais;
  3. Diálogo entre o clube e a torcida/sócios é fundamental e sinal de boa gestão e governança;
  4. Baixo nível de divulgação das informações pode sugerir que existem dificuldades em compartilhar informações;
  5. Buscar se abrir para o futuro, assumindo novos desafios. A sustentabilidade terá um papel cada vez mais estratégico e decisivo para garantir relacionamento social;
  6. Constituir programa para garantir prevenção e detecção eficaz de possíveis violações éticas;
  7. O código de ética é importante para definir melhor suas regras e comportamentos; e
  8. No Sistema de Controle Interno e Gestão de Risco, o clube pode seguir dois caminhos. A Lazio confia a tarefa para uma companhia externa. A Juventus, tem uma auditoria interna própria.

REFERÊNCIA

GAZZOLA, P., GRECHI, D., PAVIONE, E., & OSSOLA, P (2019). Corporate Governance in the Football Industry: The Italian Case. STRATEGICA, 546-555.

Publicado por Thiago Bruno de Jesus Silva

Professor • Pesquisador • Gestão, Cooperativismo e Educação Financeira

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