O debate sobre a Arena Barradão voltou com força em 2025. A proposta atual, apresentada por um consórcio privado, prevê investir R$ 1,4 bilhão na reconstrução do estádio, com gestão da arena por 35 anos. A promessa é de transformar o Barradão em um complexo moderno, com estádio ampliado, shopping, restaurantes, museu e centro de eventos.
Depois de escrever meu primeiro texto sobre o tema, recebi um material que me fez relembrar de um projeto elaborado em 2020, na gestão do presidente Paulo Carneiro. Esse estudo, chamado na época de Arena do Vitória, também sonhava com um Barradão moderno, mas sob uma lógica diferente: menos grandiosa, mais racional e ligada a pilares de sustentabilidade.
O projeto atual: modernização com concessão
O projeto de 2025 tem apelo imediato. Além de uma arena de primeiro mundo, ele traria um shopping e diversos serviços para uma região historicamente carente de equipamentos urbanos. A prefeitura já fala em obras de mobilidade, o que pode acelerar a valorização do bairro.
Mas fica uma dúvida legítima: será que um shopping no entorno do Barradão terá público suficiente para sustentar toda essa estrutura? A região não é um polo comercial consolidado e dependerá muito de como Salvador vai crescer para região nos próximos anos.
Outro ponto sensível é que não sabemos os meandros do contrato. Não foi informado, até agora, qual percentual das receitas de shopping, restaurantes, museu e eventos ficaria com o Vitória. Essa falta de clareza é crucial, porque pode significar a diferença entre o clube ser apenas um beneficiário indireto da modernização ou realmente participar dos ganhos de longo prazo.
O projeto de 2020: racionalidade e sustentabilidade
O estudo da gestão Paulo Carneiro projetava um investimento de R$ 202 milhões (valores da época), o que aproveita parte da estrutura existente. Hoje, esse número certamente seria maior, mas a ideia principal era de racionalidade.
O Complexo Toca do Leão tinha três pilares:
- Arena do Vitória, com cerca de 34,5 mil lugares;
- Academia de Futebol, fortalecendo a formação de atletas;
- Usina Fotovoltaica, para reduzir custos de energia do clube e gerar receita com venda de créditos em modelo de geração compartilhada.
As projeções indicavam receitas de R$ 65 milhões anuais, com EBITDA de R$ 37 milhões e margem superior a 55%. Esse estudo era mais do que uma ideia: já trazia fluxo de caixa, premissas de payback e estimativas de rentabilidade. Ou seja, mesmo que hoje esses valores estejam defasados, havia ali um esforço de mostrar concretamente que a arena poderia se pagar em prazo relativamente curto.
SAF: qual modelo pesa mais?
O debate passa pela SAF.
- Projeto atual (2025): o Vitória entraria “leve”, sem dívida da obra. A cidade ganharia um polo de serviços e entretenimento numa região carente, o que pode transformar o entorno do Barradão em 5 anos. Para o clube, no entanto, a autonomia sobre as receitas estratégicas pode ser limitada, já que não se conhece a divisão contratual dessas fontes.
- Projeto de 2020 (Paulo Carneiro): a arena seria um ativo dentro da SAF, o que aumenta o valuation do clube. É um caminho que dependeria de condições favoráveis de financiamento e de um investidor para execução. Ainda assim, trazia um diferencial: apresentava fluxo de caixa, projeções de retorno e um raciocínio financeiro mais transparente.
Minha opinião
Com base no que temos hoje, os dois projetos mostram caminhos distintos. O projeto atual pode acelerar a modernização e trazer desenvolvimento urbano para o entorno, mas deixa em aberto a grande questão: quanto desse avanço se converterá em benefício real para o Vitória?
Já o projeto de 2020, mesmo datado, parecia mais conectado à ideia de clube-empresa: racional, sustentável, com a usina fotovoltaica que poderá gerar economia e novas receitas, e a arena como ativo estratégico do próprio clube. É um modelo mais exigente, mas que oferece maior clareza sobre receitas e retorno.
Se tivesse que apontar hoje, eu diria que o projeto de 2020, atualizado à realidade atual, ainda representa o caminho que mais fortalece o Vitória como SAF. Isso porque não adianta ter uma arena bilionária se o clube não tiver autonomia sobre suas receitas. A longo prazo, o que sustenta um clube-empresa é controle financeiro e capacidade de gerar valor para si, não apenas para terceiros.
Convite ao debate
Essas discussões sobre Arena e SAF não podem ser conduzidas no campo político, pois o que está em jogo não é narrativa de poder, mas sim a sobrevivência e o fortalecimento do Esporte Clube Vitória.
Se alguém tiver acesso a materiais que descrevam melhor os meandros do contrato ou apresentem em detalhes o projeto de 2025, peço que entre em contato e compartilhe. Seria igualmente importante trazer à luz estudos que mostrem fluxos de caixa, projeções de payback e viabilidade — tal como ocorreu no projeto de 2020.
E mais: seria fundamental que o Conselho de Administração do Vitória colocasse em pauta também a análise da viabilidade do projeto de 2020. Afinal, ambos mexem com o futuro do clube e, sob a ótica da governança corporativa, cabe ao Conselho assegurar que os interesses do Vitória, dos sócios e de torcedores sejam preservados.
