Ler não é acumular livros. É transformar leitura em decisão

Por cerca de cinco mil anos, a humanidade registra ideias em livros, experiências em textos e tentativas de explicar o mundo em palavras organizadas. Ainda assim, pouca gente aprende a ler bem. Ler bem, aqui, não significa virar páginas com rapidez nem cumprir metas anuais de quantidade, mas extrair algo que altere a forma de pensar, decidir ou agir, de modo consistente e consciente.

Ler é ter acesso a uma ideia que, muitas vezes, levou uma vida inteira para ser construída. Em poucas horas, entramos em contato com erros, tentativas, escolhas e sínteses que não são nossas, mas que passam a ampliar nosso repertório. A leitura encurta caminhos não porque elimina o esforço, mas porque nos permite aprender com o tempo que outros já viveram.

Durante muitos anos, mantive uma média mínima de 12 livros por ano, pelo menos um por mês. Essa conta nunca incluiu as leituras do próprio trabalho — artigos científicos, capítulos técnicos, relatórios e textos acadêmicos, que sempre fizeram parte da rotina profissional. Ler era algo natural, integrado ao trabalho, ao ensino e às decisões do dia a dia.

Este ano, porém, mudei a forma de olhar para a leitura.

Passei a questionar menos a quantidade e mais a qualidade do retorno que cada leitura me entregava. Reduzi o ritmo sem culpa, abandonei livros quando percebia que não havia mais ganho real e, principalmente, voltei a livros que já havia lido outras vezes. O efeito foi imediato: o mesmo texto, em outro momento da vida e da carreira, passou a dizer coisas diferentes. A leitura deixou de ser acúmulo e passou a funcionar como diálogo com a própria trajetória.

Foi nesse contexto que, hoje, ao ler um texto publicado por Ryan Holiday, escritor e ensaísta contemporâneo, me deparei com suas 26 regras de leitura. Li o texto em uma publicação digital, de forma despretensiosa, e a sensação foi a de reconhecimento. Não se tratava de uma ideia nova, mas de algo que dialogava diretamente com um processo que já estava em curso.

O contato com esse texto corroborou aquilo que eu vinha elaborando ao longo deste ano e, mais do que isso, me impulsionou a externalizar um movimento que até então acontecia de forma silenciosa: revisar a forma como leio, releio, aplico e avalio aquilo que aprendo.

Alguns pontos ajudam a sustentar essa visão.

Ler devagar, por exemplo, tornou-se uma vantagem competitiva clara. A leitura dinâmica promete volume, mas entrega superficialidade; para quem pesquisa, ensina ou decide, velocidade raramente gera valor. Profundidade, sim. Da mesma forma, relêr passou a ser mais relevante do que buscar novidade constante, porque a releitura consolida repertório, revela camadas antes ignoradas e amadurece interpretações que só fazem sentido com mais experiência.

Anotar, por sua vez, deixou de ser um detalhe e passou a ser parte central do processo. Livro não é objeto decorativo nem autoridade incontestável; deve ser sublinhado, marcado, questionado. Leitura sem registro tende a virar esquecimento sofisticado. E discordar também se mostrou fundamental, porque ler apenas autores que confirmam crenças raramente fortalece pensamento crítico; é o incômodo que obriga a organizar melhor argumentos e sustentar posições com mais rigor.

Há ainda um ponto que costuma gerar resistência, mas que se mostrou necessário: interromper a leitura de um livro quando ele não entrega mais valor é uma decisão racional, não um fracasso. Tempo é um recurso escasso demais para ser gasto por inércia intelectual.

A leitura, portanto, não é um fim em si mesma. Ela só faz sentido quando produz consequência.

Aprender como adulto

Quando falo de leitura, parto de duas ideias que orientam meu modo de aprender: estratégias de aprendizagem autorregulada e andragogia.

As estratégias de aprendizagem dizem respeito a como o indivíduo planeja, acompanha, ajusta e avalia o próprio processo de aprender. Não se trata apenas de estudar mais, mas de assumir controle consciente sobre o que se aprende, por que se aprende e como esse aprendizado será utilizado. Essa não é apenas uma posição teórica. Em pesquisa desenvolvida com colegas, mostramos empiricamente que o aumento do tempo de estudo, por si só, não melhora o desempenho acadêmico, sendo o efeito positivo condicionado ao uso de estratégias de aprendizagem autorregulada.

A andragogia parte de um princípio simples: adultos aprendem de forma diferente. Eles aprendem melhor quando veem propósito, quando conectam o conteúdo à própria experiência e quando conseguem aplicar o que aprendem em problemas reais. O adulto não aprende para cumprir etapas formais, aprende para decidir melhor.

É a partir dessa lógica que organizei o que chamo de Método de Leitura Orientada à Decisão (MLOD), que não nasce como técnica fechada, mas como um processo intencional de aprendizagem, construído na prática e ajustado ao longo do tempo.

Meu método de leitura

(Método de Leitura Orientada à Decisão – MLOD)

1️⃣ Definição de intenção

(fase de planejamento – autorregulação)

Antes de iniciar qualquer livro, deixo claro:

  • o que busco,
  • onde pretendo aplicar,
  • qual problema ele pode ajudar a resolver.

Aqui não há leitura neutra.
Toda leitura parte de um objetivo explícito. Sem intenção, não há controle do processo — há apenas consumo.

2️⃣ Interação ativa com o texto

(fase de monitoramento – autorregulação)

Durante a leitura, sublinho, escrevo à margem, discordo e conecto ideias com experiências e outros textos. Livro não é autoridade passiva; é objeto de diálogo.

Esse movimento respeita um princípio básico da andragogia: adultos aprendem melhor quando participam ativamente, relacionam o conteúdo à própria experiência e mantêm autonomia intelectual.

Se não há registro, não houve aprendizagem — houve entretenimento intelectual.

3️⃣ Aplicação intencional

(fase de controle – autorregulação)

Ao concluir — ou abandonar — um livro, busco extrair ao menos uma entrega concreta:

  • um argumento para aula,
  • um insight para pesquisa,
  • uma ideia para texto,
  • uma lente para decisão profissional.

Nem sempre essa aplicação é direta ou imediata.

Em outros momentos, leio coisas que não têm relação aparente com minha área. Ainda assim, faço isso de forma consciente, entendendo que o cérebro aprende por associação e que leituras de outros campos ampliam repertório e, muitas vezes, geram insights inesperados (serendipidade).

Esses insights podem surgir depois, quando uma ideia reaparece aplicada a outro problema, ou até durante a leitura, quando fica claro que algo dialoga diretamente com minha área, mesmo sem relação óbvia. Parece estranho, mas acontece.

4️⃣ Retomada reflexiva
(fase de autoavaliação – autorregulação)

Sempre que necessário, retorno a trechos-chave. Releitura não é repetição mecânica; é reavaliação com outro nível de repertório.

Esse movimento começou de forma consciente quando voltei a ler O Homem em Movimento. A segunda leitura foi completamente diferente da primeira. Surgiu, inclusive, um novo bloco de anotações, separado do anterior, para registrar o contraste entre as duas leituras: o que fez sentido antes, o que ganhou novo significado agora e o que só se revelou com mais maturidade.

Esse exercício funcionou como ponto de partida do método. A releitura deixou de ser exceção e passou a fazer parte do processo.

Atualmente, estou lendo O Monge e o Executivo sob a mesma lógica: menos pressa, mais atenção ao que dialoga com experiência, decisões e prática profissional. O livro não é novo para muita gente, mas a leitura nunca é a mesma quando quem lê mudou.

Esse movimento fecha o ciclo da aprendizagem autorregulada: avaliar o que funcionou, o que mudou na compreensão e o que ainda precisa ser aprofundado.

Em síntese

Eu não deixei de ler. Eu mudei a forma como aprendo a partir da leitura.

O contato com o texto de Ryan Holiday corroborou ideias que eu já vinha elaborando e me impulsionou a externalizar um processo vivido ao longo deste ano. Colocar isso em palavras também fez parte do aprendizado, e é por isso que escrevo as minhas resenhas dos livros.

Hoje, ler bem, para mim, tem menos a ver com quantidade e mais com critério, aplicação e consequência.

Livro bom não se termina. Livro bom se trabalha.

Bom, esse é o meu método.

Publicado por Thiago Bruno de Jesus Silva

Professor • Pesquisador • Gestão, Cooperativismo e Educação Financeira

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