Os Conselhos que se Esqueceram do Vitória

O que se observa no EC Vitória hoje não é apenas crise esportiva ou turbulência política. Os problemas recentes são, acima de tudo, reflexo da falta de governança. Quando os órgãos que deveriam proteger a instituição não cumprem seus papéis, abre-se espaço para decisões equivocadas, disputas de poder e perda de rumo estratégico.

A governança corporativa em qualquer organização – seja uma empresa listada em bolsa, uma cooperativa ou um clube de futebol – depende de quatro pilares básicos: transparência, equidade, prestação de contas (accountability) e responsabilidade corporativa. Esses princípios só se materializam quando os conselhos compreendem suas atribuições e atuam de forma coordenada. No Vitória, isso não acontece.

A Crise da Reunião de 11 de Setembro

A nota divulgada pela Frente Vitória Popular expõe um episódio grave: a aprovação, em reunião extraordinária do Conselho Federativo, da venda de 15% dos direitos comerciais do clube por 50 anos, juntamente com a adesão à Liga Forte União (LFU). A denúncia aponta irregularidades flagrantes: descumprimento do estatuto, quórum insuficiente, pauta genérica e até indícios de gestão temerária.

Esse caso não é isolado: é a consequência natural de uma governança frágil, onde os conselhos não exercem plenamente sua função de proteção ao patrimônio e de direcionamento estratégico.

O Conselho de Administração: Guardião da Estratégia, Não Palco Político

O Conselho de Administração deveria ser o órgão responsável por definir os objetivos estratégicos do clube, aprovar planos de longo prazo e monitorar a execução da gestão. Ele representa os proprietários do clube, isto é, os associados, e tem como função primordial dizer “sim” ou “não” às grandes decisões que afetam o futuro da instituição.

A diretoria executiva, por sua vez, deve apresentar ideias, propor projetos e executar o que foi aprovado pelo Conselho. Trata-se de uma relação clara: o Conselho decide o rumo, a Diretoria executa o caminho.

No Vitória, esse desenho institucional parece distorcido. O Conselho atua como se fosse apenas um espaço de análises protocolares, sem se posicionar criticamente sobre objetivos de longo prazo e sem exercer a autoridade que o estatuto lhe confere. O resultado é um órgão estratégico transformado em mero fórum político.

O Conselho Fiscal: O Cão de Guarda que Não Late

Se o Conselho de Administração falhou na estratégia, o Conselho Fiscal falhou na fiscalização. Seu papel deveria ser claro: verificar conformidade com normas estatutárias, analisar demonstrações financeiras, emitir pareceres robustos sobre operações de alto impacto e oferecer segurança à torcida e aos parceiros de que o clube é gerido de forma responsável.

Mas a divergência entre o que foi votado e o que constava no ofício do Conselho Fiscal revela fragilidade. O órgão parece ter atuado mais como legitimador protocolar do que como fiscal independente.

O Amadorismo das Chapas

Outro sintoma dessa fragilidade está no próprio processo eleitoral. Os nomes das chapas que disputam espaço se apresentam mais como slogans de torcida ou facções políticas do que como programas de governança. Isso revela que a cultura política ainda se sobrepõe à lógica empresarial e institucional que o clube deveria adotar.


O Caminho Necessário

Se o EC Vitória deseja se tornar competitivo dentro e fora de campo, precisa alinhar-se às melhores práticas de governança. Isso implica em:

  • Profissionalizar o Conselho de Administração, estabelecendo critérios de competência, experiência e independência. Hoje, a escolha de conselheiros se dá principalmente por eleição entre grupos políticos; é preciso agregar também requisitos técnicos, evitando que apenas a lógica eleitoral defina quem decide o futuro do clube.
  • Fortalecer o Conselho Fiscal, garantindo autonomia e acesso direto a informações financeiras, além de capacidade técnica para avaliar operações complexas.
  • Instituir programas de capacitação em governança para conselheiros, de forma a elevar o nível do debate e da supervisão.
  • Reformular a lógica das chapas eleitorais, substituindo slogans por planos concretos de gestão, metas e compromissos de transparência.

Conclusão

O EC Vitória não precisa de silêncio, nem de discursos que tratem críticas como “falta de sossego”. O que o clube precisa é de governança sólida, respeito ao estatuto e órgãos deliberativos que cumpram suas funções com independência e responsabilidade.

Enquanto o Conselho de Administração e o Conselho Fiscal permanecerem reféns da política imediatista e sem clareza sobre suas competências, o Vitória seguirá distante das boas práticas que transformaram outras instituições esportivas em organizações sólidas, transparentes e sustentáveis.

Publicado por Thiago Bruno de Jesus Silva

Professor • Pesquisador • Gestão, Cooperativismo e Educação Financeira

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