Quem o futebol brasileiro decide legitimar?

Nos últimos dias, a discussão sobre a ausência de jogadores que atuam fora dos grandes centros nas convocações da Seleção Brasileira voltou a ganhar força. E, sinceramente, o pior caminho seria reduzir esse debate apenas a “fulano merecia” ou “fulano não merecia”. A discussão que existe por trás disso parece muito maior do que um nome específico. O ponto central pode ser outro: quais mercados o futebol brasileiro legitima como representantes naturais da excelência nacional?

Durante muito tempo, o futebol brasileiro foi analisado quase exclusivamente pela lógica da performance. Jogar bem deveria bastar. Mas o esporte deixou de funcionar apenas assim. Hoje, ele também opera como um sistema de circulação de capital, atenção, narrativa, construção de marca e legitimação institucional. E é justamente aí que habita um dos desequilíbrios mais profundos do futebol brasileiro atual.

Quando um atleta é convocado para a Seleção Brasileira, o impacto ultrapassa completamente o aspecto esportivo. A convocação gera valorização de mercado, atrai atenção da mídia, fortalece patrocinadores, amplia audiência, movimenta redes sociais, aumenta o reconhecimento nacional e fortalece institucionalmente os clubes envolvidos. Ou seja, a Seleção também funciona, na prática, como um mecanismo de distribuição de legitimidade dentro do ecossistema do futebol brasileiro.

É justamente neste ponto que o sistema começa a se revelar.

O futebol brasileiro criou, ao longo das décadas, um ciclo cumulativo de concentração. Quanto mais visibilidade um clube possui, mais atenção ele recebe. Quanto mais atenção recebe, mais patrocinadores consegue atrair. Quanto mais patrocinadores possui, maior sua capacidade de investimento. O investimento melhora estrutura, elenco, mídia, governança e competitividade. A competitividade gera títulos. Os títulos ampliam torcida, audiência e exposição nacional. E essa exposição produtos ainda mais reconhecimento institucional, mais valorização, mais mercado e mais capital. O ciclo recomeça continuamente.

O problema é que, depois de certo ponto, a visibilidade deixa de ser apenas consequência da performance. Ela passa a anteceder a própria validação da performance. Alguns clubes e mercados entram num estágio tão elevado de reconhecimento que passam a carregar consigo uma espécie de validação automática. Seus jogadores recebem mais atenção. Seus títulos possuem maior repercussão. Seus atletas circulam com mais força no imaginário nacional. Enquanto isso, outros mercados parecem precisar performar constantemente acima da média apenas para disputar níveis parecidos de reconhecimento.

Essa dinâmica termina por produzir um desequilíbrio estrutural difícil de romper. O sistema passa a premiar não apenas quem performa mais, mas principalmente quem já ocupa posições historicamente legitimadas dentro do mercado esportivo nacional.

Sistemas excessivamente concentrados produzem vantagens cumulativas. Alguns clubes disputam títulos. Outros parecem precisar disputar primeiro o direito de serem plenamente reconhecidos como grandes. E isso impacta diretamente a capacidade futura de crescimento desses mercados, afetando a atração de patrocinadores, a valorização institucional, a retenção de talentos, a circulação de capital, o desenvolvimento da base e até a expansão de torcida.

Sim, de torcida também.

Afinal, torcida não nasce apenas da geografia, nasce da percepção de grandeza. Crianças crescem assistindo quem aparece mais, quem vence mais, quem possui mais espaço na mídia, quem possui atletas convocados, quem movimenta o imaginário coletivo nacional. O sistema então não concentra apenas dinheiro e títulos; ele concentra capacidade futura de expansão cultural.

Sob essa ótica, compreende-se por que determinados clubes conseguem crescer nacionalmente quase de maneira automática, enquanto outros, mesmo extremamente relevantes regionalmente, seguem presos numa disputa permanente por validação. Não porque lhes falte torcida, história ou relevância esportiva. Muitas vezes, o que lhes falta é espaço proporcional dentro dos grandes mecanismos nacionais de reconhecimento.

O mais curioso é que esse modelo termina enfraquecendo o próprio futebol brasileiro. Ecossistemas fortes não crescem apenas pela força dos seus centros dominantes. Crescem pela capacidade de transformar diversidade competitiva em potência coletiva. Quando o reconhecimento fica excessivamente concentrado, o futebol perde pluralidade, perde novos polos de excelência, perde equilíbrio competitivo e reduz sua própria capacidade de crescimento enquanto indústria esportiva.

Ao longo da história, alguns episódios acabaram simbolizando esse debate. O caso de Charles Fabian, campeão e artilheiro do Brasileirão de 1988 pelo Bahia, é frequentemente lembrado como exemplo de um período em que atuar fora do eixo tradicional parecia reduzir drasticamente as chances na Amarelinha. Mais recentemente, o protagonismo moderno de clubes como Athletico Paranaense e Fortaleza, que mesmo empilhando grandes campanhas e títulos encontram barreiras invisíveis para emplacar seus destaques na Seleção, reacendeu essa percepção. Um sintoma claro e atual desse mesmo cenário é o caso de Luciano Juba neste ano de 2026. Mesmo vivendo uma fase incontestável no Bahia e entregando uma performance que em outros mercados seria tratada como um passaporte carimbado para a Seleção, o atleta esbarra no teto de vidro da falta de validação automática do ecossistema centralizado.

O ponto nem é discutir apenas quem deveria ou não ser convocado. O ponto mais profundo é entender o que acontece com o futebol brasileiro quando alguns mercados parecem possuir muito mais facilidade estrutural para transformar performance em reconhecimento nacional.

A convocação para a Seleção nunca movimentou apenas futebol, também movimenta narrativa, mercado, atenção, dinheiro e reconhecimento. E o problema pode nunca ter sido apenas quem joga melhor… pode ser quem o futebol brasileiro escolhe transformar em vitrine nacional.

Nota do autor: Este texto contou com o suporte de Inteligência Artificial para o refinamento da linguagem, clareza das ideias e revisão gramatical.

Publicado por Thiago Bruno de Jesus Silva

Professor • Pesquisador • Gestão, Cooperativismo e Educação Financeira

Um comentário em “Quem o futebol brasileiro decide legitimar?

  1. Está enraizado no futebol brasileiro e não vai mudar. Os clubes nordestino são ofuscado pela mídia e com isso grandes jogadores sofre, ex de juba e Erick

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