A Corrida que Eu Não Planejei

Durante muito tempo imaginei que este texto seria escrito depois da minha primeira maratona. Pensava em contar como foram os 42 quilômetros, o relógio marcando o tempo final, a medalha no peito e a sensação de ter alcançado um objetivo perseguido durante meses. No entanto, a história tomou outro caminho. Antes que a largada acontecesse, veio a lesão. E, olhando para trás, talvez tenha sido justamente ali que a verdadeira maratona tenha começado.

Hoje entendo que correr nunca foi apenas sobre correr. A corrida acabou se tornando uma forma de compreender coisas que, até então, eu enxergava apenas na teoria: planejamento, adaptação, paciência, limites e recomeços. Este texto nasceu dessa travessia.

Km 0

Em maio de 2025, o joelho travou e, com ele, o planejamento construído durante meses. A Maratona de São Paulo (em julho), que ocupava boa parte da minha rotina e dos meus pensamentos, deixou de ser uma possibilidade concreta e passou a ser uma incerteza. Naquele momento, não era apenas uma prova que ficava mais distante, era uma parte da identidade que eu vinha construindo como corredor.

Demorei alguns dias para entender que a corrida que eu faria dali em diante seria completamente diferente daquela que havia planejado.

Km 5

Vieram os exames, as consultas e os diagnósticos. Síndrome do corredor. Condropatia. Desgaste. Os nomes explicavam parte do problema, mas não respondiam à pergunta que realmente importava: eu voltaria a correr?

Curiosamente, fiz com a lesão aquilo que costumo fazer com os temas das minhas pesquisas. Li artigos, conversei com profissionais, procurei compreender causas, possibilidades e alternativas. Era como se entender o problema me ajudasse, de alguma forma, a conviver melhor com ele.

Talvez tenha sido nesse momento que percebi que recuperar também exige conhecimento.

Km 10

O tratamento passou a ocupar um espaço que antes pertencia aos treinos.

Vieram a fisioterapia, a infiltração, a onda de choque, o gelo, os exercícios de fortalecimento e uma rotina completamente diferente daquela que eu imaginava viver naquele ano. No início, tudo parecia uma interrupção. Com o tempo, comecei a perceber que aquilo também fazia parte da preparação.

Km 15

Mesmo lesionado, achei que daria para me recuperar até julho. E o que fiz? Meu ajuste foi trocar os 42 quilômetros pelos 21 da meia maratona. Depois veio uma decisão ainda mais difícil: aceitar que talvez nem essa prova fosse possível.

Cancelar uma inscrição dói mais do que muita gente imagina. Não pelo dinheiro investido ou pela logística da viagem, mas porque significa admitir que o corpo não acompanhará o plano que a mente desenhou. Foi um exercício difícil e de humildade.

Hoje é fácil perceber que abandonar uma prova não significa abandonar um sonho. Significa apenas reconhecer que alguns caminhos precisam de mais tempo.

Km 21

Havia dias em que o joelho respondia bem, e outros em que uma simples fisgada fazia o medo reaparecer. Aprendi a conviver com essa oscilação sem transformar cada desconforto em uma sentença definitiva.

Talvez tenha sido essa a principal mudança daquele período. Parei de enxergar o corpo como uma máquina que deveria responder exatamente ao que eu planejasse. Passei a tratá-lo como algo que também tem seu próprio tempo.

Foi quando a ansiedade começou, lentamente, a dar espaço para a paciência.

Km 30

Se a lesão mudou minha relação com a corrida, ela também mudou minha forma de cuidar de mim.

A musculação deixou de ser um complemento e passou a fazer parte do treino. Alongamentos, mobilidade, fortalecimento, alimentação e descanso ganharam uma importância que antes eu não lhes dava. Descobri que uma maratona começa muito antes da largada e que boa parte dela acontece quando ninguém está olhando.

Ao mesmo tempo, outras coisas continuavam acontecendo. Continuei dando aulas, orientando alunos, escrevendo artigos, desenvolvendo pesquisas e encontrando na música um espaço para respirar. Percebi que, enquanto uma parte da vida parecia suspensa, todas as outras continuavam seguindo adiante. Talvez isso também tenha me ajudado a entender que nenhuma paixão precisa carregar sozinha o peso da nossa identidade.

Km 35

Pouco a pouco os treinos voltaram.

Primeiro as caminhadas… Depois os trotes… Mais tarde vieram os cinco quilômetros, os longões e a planilha que, durante algum tempo, achei que nunca mais voltaria a seguir. O medo não desapareceu completamente. Ainda hoje existem dias em que uma pequena fisgada desperta lembranças daquele período.

A diferença é que ela já não determina minhas decisões. Hoje corro com mais respeito pelo meu corpo do que quando comecei. Não porque tenha ficado mais frágil, mas porque aprendi que resistência também significa saber escutar os próprios limites.

Km 40

Enquanto reconstruía minha corrida, percebi que estava reconstruindo outras partes da vida.

Passei a valorizar ainda mais o processo do que os resultados imediatos. Curiosamente, era a mesma lógica que eu já defendia na pesquisa e na sala de aula, mas que precisei experimentar na prática para compreender de verdade.

Ainda existe uma planilha na parede. Ainda existem os treinos longos, os exercícios de fortalecimento, a expectativa pelos próximos meses e a vontade de descobrir até onde consigo ir.

Mas existe, sobretudo, uma tranquilidade que eu não tinha antes. A de entender que algumas conquistas não podem ser apressadas.

Km 42

Enquanto escrevo este texto, continuo me preparando para correr minha primeira maratona.

Não sei em que momento você estará lendo estas linhas. Talvez eu ainda esteja no meio desse ciclo de treinos. Talvez a prova esteja a poucos dias de acontecer. Ou talvez você tenha encontrado este texto meses ou anos depois e eu já tenha cruzado a linha de chegada dos meus primeiros 42,195 quilômetros.

Sinceramente, espero e desejo que sim.

Mas também espero que, se isso já aconteceu, eu nunca esqueça que a maratona mais importante não foi aquela marcada no calendário. Foi esta, invisível, que começou quando precisei interromper um sonho para aprender a reconstruí-lo.

Hoje continuo acreditando na prova que um dia imaginei correr. Continuo acordando cedo para os longões, fortalecendo o corpo, ajustando a rotina e respeitando o tempo da recuperação. A diferença é que já não vejo a maratona como um ponto final.

Vejo como mais um capítulo.

Porque alguns sonhos não existem para serem conquistados rapidamente. Existem para nos transformar enquanto caminhamos em direção a eles.

Epílogo.

Se você chegou até aqui depois que a minha primeira maratona aconteceu, espero que eu tenha cruzado aquela linha de chegada sem esquecer tudo o que aconteceu antes dela.

Se ela ainda não aconteceu, tudo bem. Os quilômetros continuam… e eu… continuo caminhando na direção deles.

Nos vemos na largada. Amém.

Publicado por Thiago Bruno de Jesus Silva

Professor • Pesquisador • Gestão, Cooperativismo e Educação Financeira

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