O QUE PODEMOS MELHORAR NA CONTRIBUIÇÃO TEÓRICA?

Muitos artigos são rejeitados por causa de uma contribuição insuficiente. Segundo a Professora Grazia Santangelo e o Professor Alain Verbeke, este caso é explicado ao considerar que a maioria dos editores espera que os artigos façam contribuições relacionadas a teoria. A partir disso, os autores forneceram diretrizes com o intuito de ajudar a esclarecer a contribuição da pesquisa relacionada a teoria e que evite erros comumente cometidos.

Grazia Santangelo e Alain Verbeke recém publicaram o editoral do Journal of International Business Studies. O editorial foi direcionado para o campo de pesquisas de negócios internacionais. Acredito que podemos usar esses direcionamentos também em nossas pesquisas no campo contábil, finanças e administração. Aqui você tem acesso para leitura do editorial, o que super indico.

Santangelo e Verbeke entendem enquadramento teórico como a demonstração de conhecimento adequado das principais discussões do campo de pesquisa, as suas suposições existentes e variáveis consideradas relevantes. Este enquadramento que use linguagem, de forma racional e significativa, é uma pré-condição para convencer que o/a autor/a entende da realidade do campo. Sem o domínio da linguagem, é improvável uma contribuição relacionada à teoria.

Os autores lamentam e explicam que muitas/os autores/as não entendem o quão é essencial a linguagem. Geralmente, estes buscam a implantação de teorias que não são específicas ao campo. Além disso, projetam modelos conceituais com suposições fortes e focam em algumas variáveis explicativas supostamente relevantes. Essas suposições, variáveis e resultados permanecerão periféricos (na melhor das hipóteses) e improvável que avancem.

A atenção dos editores e, também, dos revisores é no que falta. A lacuna de pesquisa pode se originar de diversas formas, como contradições que emanam de modelos conceituais convencionais, divergência entre a teoria e a realidade observada. Os autores exemplificam por meio de uma típica situação de “cachorro que não latiu durante a noite” (o que se refere à curiosa ausência de um elemento esperado). Isso equivale a aumentar e melhorar o que já existe, seja de forma incremental ou radical.

Os autores explicam que a novidade, de uma só vez, não será de fácil aceitação para alguns críticos. Um elemento novo e/ou alterado introduzida em um modelo já consolidado deve ser convincente para os revisores – e para os leitores – e fazer parte de uma narrativa coerente. Nesse contexto, a novidade deve ser sempre defensável. Os autores usam o ditado que “o segundo rato fica com o queijo” para apontar que os ambiciosos (ou pioneiros) nem sempre são bem-sucedidos.

Um outro ponto interessante no editorial é sobre o equilíbrio. Este não é apenas como escolha metodológica, mas também como uma forma de garantir a aceitabilidade do modelo conceitual do artigo. Nesse sentido, os autores sugerem que se discuta com os trabalhos teóricos e estudos empíricos antigos, como uma forma de dar credibilidade da própria análise e a visão do artigo.

A teorização deve ser sempre a serviço de uma compreensão mais completa possível do mundo empírico. Segundo os autores, o estudo deve descrever o fenômeno empírico, a lacuna e as questões que serão respondidas. Contudo, o modelo conceitual não é um processo mecânico e deve ser associada a uma narrativa convincente, a realidade empírica e expressa na linguagem do campo.

Por fim, ter conhecimento profundo da teoria e/ou modelo, entender as discussões do momento do campo de pesquisa, são fundamentais para construir o enquadramento teórico, o que pode aumentar a chance de aprovação do artigo.

Este editorial foi gentilmente enviado pelo amigo Jonas Fernando Petry, do curso de Administração da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e editor da revista UFAM Business Review. Como o artigo utiliza de alguns ditados, gostaria de agradecê-lo com um bem usado aqui no Brasil, “quem tem um amigo, tem tudo”.

REFERÊNCIA

Santangelo, G. D., & Verbeke, A. (2022). Actionable guidelines to improve ‘theory-related’contributions to international business research. Journal of International Business Studies, 53(9), 1843-1855.

DECLARAÇÃO DA MISSÃO: O QUE NÃO PODE FALTAR?

A missão é um dispositivo de comunicação para informar o que é mais importante à organização. Apresenta uma descrição que permite aos consumidores, fornecedores, parceiros (atuais e em prospecção) e colaboradores decidirem se desejam ou não se envolver com o negócio.

A partir do período que a administração determina o principal gerador de receita e os valores e os princípios orientadores, é momento de elaborar ou revisar a declaração da missão. À medida que o negócio evolui, a missão também deve evoluir. Cabe à liderança, com o time de finanças e contabilidade, avaliar quanto a possível necessidade de atualizar em respostas a mudanças ocorridas no ambiente.

Para aqueles negócios sem declaração de missão, uma boa forma de começar é enumerar os valores que gostaria que o pessoal incorporasse e as ações que executassem ou evitassem. Para tanto, é importante responder às seguintes perguntas: O que fazemos e por quê? A quem servimos? Como os servimos? 

Os valores essenciais e os princípios orientadores devem ser listados na missão para fornecer aos colaboradores estrutura de como se comportar de maneira profissional e ética. O código de ética, a visão, juntamente com a articulação dos objetivos e o que é necessário para alcançá-los, moldam a cultura organizacional.

A declaração de missão motiva o pessoal a trabalhar em conjunto para avançar em direção a estratégia (objetivo comum definido), de forma ética. A declaração de missão se concentra no que a organização faz e é no presente. Alguns negócios elaboram uma declaração de visão no lugar da missão. A declaração de visão se concentra no que a organização deseja se tornar no futuro. 

John Pearce propôs um modelo no artigo The company mission as a strategic tool com 8 elementos que não podem faltar na frase da missão para se ter efetividade. A intenção é torná-la eficiente e servir como norte na condução das ações organizacionais na sociedade.

O tipo básico de produto ou serviço oferecido;Grupo de consumidores que serão beneficiados com os produtos/serviços vendidos;
Tecnologia que será utilizada na produção/entrega do produto ou serviço;Preocupação pela sobrevivência por meio do crescimento e da lucratividade;
A filosofia empresarial;Preocupação com a imagem pública;
O conceito próprio da firmao domínio geográfico da organização.
Fonte: Pearce (1982)

Como exemplo, a Nike apresenta na sua declaração de missão voltada para o consumidor: “Trazer inspiração e inovação para todos os atletas do mundo. Se você tem um corpo, você é um atleta.”. Na declaração de missão interna, a Nike divulga princípios orientadores para dar senso de direção e propósito aos colaboradores, incluindo: “Inovar é nossa natureza”, “Simplificar e seguir em frente”, “O consumidor decide”, “Evolua imediatamente”, “Faça a coisa certa”, “Domine os fundamentos” e “Estamos no ataque – sempre”.

 A declaração de missão do TED é focada em ajudar os outros a compartilhar ideias. Para fazer uma palestra TED, é preciso ter uma ideia que valha a pena compartilhar. A declaração de missão do TED é simples e focada em ações: entregar e compartilhar uma mensagem valiosa.

Resumindo a história

Em 2014, elaboramos um estudo que buscava identificar quais fatores explicam a efetividade da missão (modelo do Pearce) de 194 empresas brasileiras listadas na B3. Constatamos que o cliente obteve o maior número de citações nas missões, seguido do conceito próprio da empresa e os produtos e serviços.

A maioria das firmas apresenta 3 a 4 elementos, apenas 3 apresentam todos os elementos e 11 firmas evidenciaram apenas 1 item. Na parte de baixo do ranking, têm-se domínio geográfico e tecnologia. Por fim, o lucro e número de empregados explicam o nível de efetividade da missão.

Limitações e oportunidades para novos estudos

Você que é pesquisador e se interessa pelo tema, este estudo necessita de replicação, visto que o ano de análise foi 2014.